quarta-feira, 27 de junho de 2007

Cusco 04






O Sol apareceu sem qualquer cerimônia na manhã de hoje. Nas ruas, passos retos e acelerados nas sinuosas ruelas do bairro de San Blas. Do alto da torre direita da Catedral, Maria Angola, a maior e mais antiga das campanas, cantava, às 10h, na única língua comum entre todos peruanos. “O dia já começara bem” lembrei mais tarde, quando o astro já se escondia entre as montanhas que abraçam Cusco. Durante o almoço percebo uma movimentação na pequena praça em frente a Igreja de San Francisco: um grande número de pessoas, a maioria de origem quéchua, comemorava a resolução que institui a obrigatoriedade do ensino da língua quéchua nas escolas. Na TV o destaque não foi grande mas nas ruas percebia-se a importância da vitória. Os quéchua são a maioria indígena do país e a medida não é só um passo para unir algumas diferenças é, também, uma forma de prestar uma necessária homenagem à riqueza desta cultura. Há alguns anos algumas das ruas de Cusco, que tinham nome em espanhol, receberam novos nomes, em quéchua, como início deste processo de resgate. Pouco mais tarde, depois da siesta, o orgulho peruano recebeu outra injeção de ânimo: Fujimori, ex-presidente que depredou os já não estáveis cofres do país, teve negado seu direito de disputar cargo político no Japão, seu país de origem. A decisão final ainda não foi dada mas hoje o corte japonesa deu um sinal claro de rejeição ao pedido de Fujimori. Os peruanos, é claro, vibraram. A terceira grande comemoração do dia veio ao fim do jogo entre Peru e Uruguai: 3x0 Peru. Decretado o placar, me juraram, cheios de estima, goleada quando enfrentassem o Brasil, direito deles, já que o dia todo foi cheio de boas vibrações. Às 22h Maria Angola cantou de novo, ressoando seus badalares pela região altiplana do Peru e anunciando o fim de um dia cheio de conquistas. Como sempre, a noite chegou fria, gélida, mas o sol que apareceu de manhã ainda brilhava forte dentro dos peruanos.

Cusco 03





segunda-feira, 25 de junho de 2007

Inti Raymi





O Inti Raymi (festa do sol) é um dos maiores legados Incas ao povo peruano. Esta foi a mais importante de suas festas, celebrada por ocasião do solstício de inverno - o ano novo solar para um povo que dominava a astrologia e cujo principal objeto de culto era o deus Inti (deus sol). A festa acontece todos os anos no dia 24 de junho, mas nem sempre foi assim.

Após a conquista dos espanhóis (extermínio, na verdade) a cerimônia foi suprimida pela igreja católica e a sociedade andina que participava do festejo foi simplesmente dizimada. Por conta da evangelização promovida pelos colonizadores a festa perdeu-se no tempo, sendo atrolepada pela cultura dos europeus e recuperada pelos cusquenhos em meados do século XX quando, como expressão de um forte movimento de revaloração da cultura nativa do Peru, a celebração voltou a colorir as ruas de Cusco.

Encabeçados por Humberto Vidal, intelectuais e artistas cusquenhos decidiram recuperar o Inti Raymi do esquecimento e apresentá-lo ao povo de Cusco como um belo espetáculo teatral e, sem muita demora, caiu nas graças de pessoas das mais diversas culturas. O tom pluricultural da festa não se deve apenas a abertura aos não nativos, pois nos desfiles que acontecem dias antes do Inti Raymi (ver fotos nos posts 1 e 2), onde participam “blocos” de estudantes, marciais, instituições etc, cada um deles têm características próprias, coreografias e trajes distintos, embora sempre ricos em cores, e, com a liberdade interpretativa que o teatro sugere, o que se vê ao fim de um dia de desfiles é uma grande mistura de idéias que se amarram a grandeza do Inti Raymi.

Um dos resultados da tradição oral dos Incas – a escrita foi uma das poucas coisas que eles não chegaram a desenvolver - é a riqueza mitológica desta cultura. A crença por trás do Inti Raymi é que, com a ajuda de seus sacerdotes, os Incas clamavam ao deus Inti (deus sol), assim que este chegava ao seu ponto de maior distância no céu, a voltar a cidade de Cusco para, com seus raios, fecundar a terra para que jamais existisse a fome e trazer bem-estar aos filhos do império Tahuantisuyo, que se extendia do norte do Equador a região central do Chile.

A festa recebe anualmente uma quantidade incalculável de visitantes. Como nem todos pagam pela entrada do evento é impossível calcular o número exato de pessoas. Mas o certo é que, sendo nativo ou não, a explosão de cores do Inti Raymi nos leva a um tempo muito distante, que nos aproxima um pouco mais desta cultura viva e sofisticada elaborada pelos mais de 12 milhões de indivíduos Incas a mais de 500 anos. O apelo turístico por trás do Inti Raymi também é grande, pois Cusco, durante todo o ano, é parada obrigatória a quem visita a região altiplana. Mas isso não tira o charme da antiga capital do império Inca, pelo contrário: a multidão de visitantes que se espremem nas suas ruelas é um elemento complementar a fantástica “capital arqueológica da América”.

Tentei postar videos só do Inti Raymi, mas estao grandes e o youtube nao esta aceitando...

sábado, 23 de junho de 2007

Cusco 02







Acordar de manhã, ir ao mercado municipal, me perder em meios às banquinhas e gritos (em espanhol e quéchua, uma das línguas do Peru - há ainda uma terceira, o aimara) que anunciam todo tipo de coisa, tomar um suco natural e dedicar alguns minutos a ver a enxurrada de jovens com mochila nas costas a sair da estação de trem que liga Cusco aos pés de Machu Picchu tem sido a minha rotina matinal. De dentro do mercado já é possível ver esta cena, mas o frio absurdo que faz cusco tremer me parece muito convidativo para um cigarro pós desayuno, daí vou até os banquinhos, que ficam do lado de fora, e divido espaço com nativos curiosos, que vêem esta mesma coisa todos os dias sabe-se lá há quantos anos. Por ocasião do Inti Raymi (a festa do sol), Cusco está lotada. Estão rolando vários desfiles pelas estreitas ruas, um preparativo tradicional para a grande festa. Quase não consegui comprar o meu ingresso (custou 40 dólares), mas graças a política tecida pelo Rafo (o dono do hostal), minha entrada está garantida. Hoje, perambulando, encontrei a Denise Fraga, que está fazendo o “Por ti, América” para o Fantástico e conversamos algumas amenidades, bem gente boa esta menina. Ontem a noite teve um show na Plaza de Armas (a maior e principal da cidade) e acabou umas 00h30. Daí fui ao Mamaáfrica, balada da qual eu, Fábio, Padim e uma pá de gringos amigos fomos expulsos em março. Que lembrança! Mais uma vez me veio a nostalgia, mas assim que começou o Reggaeton (o som que comanda por estas bandas) eu engoli as lembranças num bom gole de cusquenha (a cerva daqui) superei tudo rs.

P.S: Marcílio: traga um casaco forte, viu? Ou melhor, dois rs

Cusco 01









Os vôos não atrasaram mas os ônibus bolivianos...
De Cochabamba (Bolívia) a Cusco (Peru), passando por La Paz, o atraso foi de 9 horas. Minha intenção era chegar a Cusco ainda de tarde para pegar algum movimento na cidade, mas tudo que me esperava, às 03h, era um frio aterrorizante e um silêncio perturbador. Nem táxis havia. Éramos uns 25 e nos revezamos a medida que os táxis, preguiçosamente, apareciam. Estou no hostal (albergue) que era de um dos donos do hostal onde eu, Padim e Fábio estivemos em março e chegar aqui de madrugada foi bom demais. A porta estava fechada, o que implicou em mais uns minutos de tremedeira no frio inverno peruano, mas a sensação de pisar de novo nesta cidade linda compensa isso tudo. Aberta a porta, subi e dei de cara com Rafo, o dono, e demos várias palas. Na sala, 5 Israelenses, 1 chinês, 1 brasileiro e duas canadenses se esparramavam no sofá que fica de frente para a TV. Assistiam a um filme qualquer enquanto eu atravessei, com a minha mochila, um mar de caixas de pizza espalhadas pelo chão. Curti o ambiente de cara. Rafo me colocou num quarto com cama de casal e banheiro e me cobrou um terço do que está cobrando, nada mal. Cansado, tomei um banho, coloquei uma roupa bem pesada e cai na cama. Pouco depois reacendo a luz: o barulho de risadas e dos copos sempre cheios de vinho era mais alto que o meu grau de cansaço. Abri a porta e caminhei até o sofá. Fui dormir bem depois, já bêbado e feliz da vida com os novos contatos. Definitivamente isto me faz bem. Acordei já na hora do almoço e fui a uma pizzaria (aquela mesma, Fabim) com duas israelenses, que depois foram visitar ruínas enquanto eu fui andar pela cidade, curtir uma nostalgia boa e solitária no Quéchua Hostal, local onde fiquei da primeira vez e que está longe de ser o que era. Pretendo ficar assim, sem pressa nenhuma, até domingo, dia do Inti Raymi (festa do sol, herança direta dos Incas ao povo peruano, que nesta data faz uma celebração ao sol em uma das várias ruínas próximas a Cusco). Já que nem os motoristas de ônibus - que teoricamente precisam cumprir horários – parecem ter pressa, não serei eu a tê-la agora, né?