segunda-feira, 23 de julho de 2007

Lago Titicaca







O Peru divide com a Bolívia um dos mais belos cenários da nossa América. O lago Titicaca, que segundo os mitos Incas é o local de surgimento desta cultura, está a mais de 3.750 metros acima do nível do mar, confortavelmente instalado no altiplano desta região. É o lago navegável mais alto do mundo e residência dos habitantes das ilhas flutuantes de Urus (ver vídeo) e ilha Taquile além das ilhas da Lua e do Sol, as duas últimas em território boliviano. Saímos de Cusco e fomos a Puno e Copacabana - ambas as cidades estão debruçadas sobre o lago. Íamos ficar três dias em Copacabana mas eu, Elisa e Kaala, australiana que saiu de Cusco com a gente, ficamos gripados, daí vamos embora amanhã cedo para um lugar menos frio. Em Puno já são mais de 30 as crianças com menos de cinco anos que morreram de pneumonia neste inverno. O Estado peruano enviou brigadas médicas para frear o número de vítimas. José, dono do hostal onde estamos, disse que na semana passada a noite chegava abaixo dos 15 graus. Me pareceu exagero, mas ao comprar o jornal vimos que todos os veículos estampam as baixas temperaturas em suas capas. Espero que La Paz esteja mais ameno. Aliás, daqui pra frente é só problema. Como fizeram os professores no Peru, aqui na Bolívia há uma ameaça real de fecharem os acessos a La Paz, ou seja, talvez eu não consiga pegar meu vôo na cidade de Cochabamba. Se tudo der certo e eu embarcar ainda corro o risco de não chegar a Brasília, uma vez que farei conexão em Congonhas, um aeroporto que dava medo mesmo antes do último acidente. Aliás, atchiiim, pra que eu fui sair de Cusco mesmo, ein?

sábado, 21 de julho de 2007

Saludos a Cusco




















Mais uma vez despeço-me de Cusco a duras penas. Enquanto risadas vindas da sala invadem meu quarto pelas brechas da porta, minha mochila (re)toma forma ao passo que alojo as minhas tralhas. Agora é só “juntar lembranças para os dias que virão”. No lap top, Mundo Livre S.A.. Na minha cabeça, quase um mês e meio de “turismo vivencial”. Rafo usou este termo para definir a minha passagem por aqui numa noite em que fomos ao aniversário de uma amiga dele. Neste dia eu tive a noção do valor dos laços que criei aqui, ganhei inclusive a primeira fatia do bolo. Os cusquenhos gostam de receber as pessoas, essa é a minha conclusão. Não falo sobre os que oferecem serviços turísticos, hoteleiros ou gastronômicos, sim do povo, o cusquenho que tem vida social, que enjoa da quantidade de estrangeiros que se esparramam diariamente pela principal praça da cidade mas dão toda a atenção quando um deles vai às suas casas, convidados para celebrar uma ocasião qualquer. Além do aniversário da Vanessa eu participei de outros encontros, quase sempre da mesma mancha (galera), onde sempre me senti em casa, isto é, quando o álcool me permitia sentir alguma coisa. Conhecer inúmeros estrangeiros também foi mais uma vez bacana. O freqüente entra e sai de mochileiros aqui no hostal me rendeu muitas lembranças. São muitos os e-mails anotados na esperança de um possível reencontro.

- Já sabe, quando for ao meu país me escreva!!!
- Claro que sim. Manteremos contato. Sentirei a sua falta.

E assim com todos. As chances de um segundo encontro são baixas mas o que importa mesmo e folhear cada um dos e-mails e ver o quanto se ampliou o seu circulo de amizades. Ah, Cusco. Sentirei falta do frio, dos sucos no mercado popular, do Rum com Coca-Cola, das algazarras em San Blas, do Reggaetom, do colorido, da voz da Maria Angola, do Ceviche (prato nacional), das noites vendo DVD com o povo, das sopas, das pessoas, do blog. Amanhã levo minha nostalgia para Puno. Na primeira vez achei que estava me despedindo, triste, de Cusco, sem saber que voltaria em breve. Oxalá desta vez aconteça o mesmo.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Machu Picchu, uma antiga maravilha do mundo.




Em 1911 um americano “descobriu” o que alguns quéchua que ali viviam já diziam conhecer: a cidade de Machu Picchu. Uma enorme expedição teve então início e foram descobertas outras ruínas além de uma trilha, a Trilha Inca. Hiram Bingham, que na verdade estava inicialmente interessado em estudar a topografia do país e seus ossos pré-históricos, apresentou a cidade ao mundo na publicação da National Geografic de 1913, pois além de sortudo era muito bom fotógrafo. Desde então a cidade perdida virou fetiche de viagem para muitos e um complexo campo de estudo para outros.

Acredita-se que a cidade tenha sido construída, habitada e abandonada em menos de 100 anos (a mais de 500 anos atrás). São 200 estruturas de casas e por esta razão estimam ter vivido aqui cerca de 1000 pessoas. Pachacuteq, o responsável pela ascensão do Império Inca, teria construído Machu Picchu - a 2.491 metros de altura – pouco antes da invasão espanhola e a abandonado pouco depois. Os europeus não souberam do local e isso diz muito sobre o porque do incrível bom estado de conservação da cidade.

A cidade é dividida em duas partes. Na agrícola vemos terraços que serviam para o plantio (isso que parecem grandes degraus – ver fotos) que além de ser uma solução muito inteligente tem também uma idéia estética bastante apurada. Arqueólogos estudam as camadas deste solo na expectativa de descobrir o que crescia ali. Tudo aponta que a maíz (milho) era cultivada nestes terraços. Na parte urbana, ruas e casas edificadas sobre imensas pedras - que absorvem o impacto de abalos sísmicos – chamam a atenção pela perfeição dos encaixes que desenham uma cidade de aparência bem planejada. As ruas de Machu Picchu nos levam a uma inevitável pergunta: como eles trouxeram tantas pedras enormes até aqui? Sabe-se muito pouco sobre a origem e funcionalidade de Machu Picchu. Uns dizem ter sido o centro administrativo do império Tawantinsuyu (Império dos quatro cantos), outros o centro religioso e alguns obra de extraterrestres, como, “reforçam” eles o argumento, as linhas de Nazca, há poucas horas daqui. O certo é que toda esta falta de informação mais sólida faz com que o cenário seja perfeito para a confusão de sensações que a cidade imprime.

















As três maneiras mais usadas para chegar a cidade perdida.

1 – Trem. Partem de Cusco e variam de preço, média entre 100 e 300 dólares ida e volta.
2 – Partindo de ônibus de Cusco até Santa Maria (viagem de 7 horas) e de lá uma van para Santa Tereza (+ 3 ou 4 horas numa estrada tipo precipício), de onde se caminha para chegar a Águas Calientes (caminhada de 3 a 5 horas) para, no dia seguinte, subir a Machu Picchu. 3 – A clássica trilha Inca, com variações de 2 a 5 dias de farta caminhada.

Há planos para a construção de um teleférico em Machu Picchu. O projeto é antigo e bastante polêmico mas o argumento da UNESCO (que em 1983 declarou a cidade patrimônio Cultural e Natural da Humanidade) de que a inovação ajudaria na preservação do patrimônio dá cada vez mais força aos idealizadores. Com isso espera-se um número ainda maior de visitantes diários, que passariam a ter acesso à cidade pela parte de trás, onde há uma central termoelétrica, decongestionando assim a rota atual.

E aí, se anima?

“Sair de viagem é sentir-se como no descontrolado momento em que surge o orgasmo” Rafo Leon, escritor peruano.

sábado, 14 de julho de 2007





O causo do açúcar

Muito do colorido de Cusco deve-se a variedade de frutas oferecidas nas ruas e mercados espalhados pela cidade. A grande oferta de outros alimentos - como milho, queijo e mexericas (inclusive sem caroços!!) – é impressionante. Nesta manhã eu fui ao mercado em busca de uma fruta muito específica, clássica nos liquidificadores das melhores famílias brasileiras: o abacate. Encontra-se com facilidade por aqui também mas o uso que fazem deste distingue muito dos nossos hábitos vitaminescos. Em março, quando estive aqui com Padim e Fabim, me surpreendi quando um grupo de chilenos nos confessou nunca ter tomado vitamina de abacate. Mais que isso, fizeram cara de nojo. Eles não concebiam a idéia de sentir o sabor do abacate com açúcar. Aquilo me doeu. A palta (abacate em espanhol) para eles tem outros fins. Nas saladas, no meio do alface, tomate e cebola, ela tem lugar garantido. Eu provei algumas vezes e asseguro que não é o melhor rendimento que o nosso bom e verde abacate pode ter. Bom, ontem a cena com os chilenos se repetiu aqui no hostal quando Rafo e René (peruanos), Thomas (Inglês), Elina e Assuncion (mexicanas) e Lital (israelense), coloram suas pobres línguas para fora fazendo cara de “aaargh!!!” quando eu falei sobre esse nosso tesouro. Por isto a minha missão nesta manhã foi ir buscar uma palta para mostrar a eles o que é bom pra tosse. Sem avisar, comecei a preparar a vitamina. Ao ouvir o ruído do liquidificador, René se aproxima e entende de cara o que estava acontecendo. Calado esperou, espiou, coçou a cabeça. Desliguei o aparelho e provei. Não estava perfeito. Quando coloquei mais açúcar na vitamina ele disse: Putz, que coisa nojenta. Engoli quieto, como quem engole contente o primeiro trago da maravilha que estava a caminho. “Deixa ele”, eu pensava. Liguei o liquidificador e ele continuou ali, gorando. Pronta a vitamina, peguei um copo e me servi. Fiz aquela cara de Ana Maria Braga (estava realmente boa) e fui pro sofá ver TV. Ele continuava de pé, queria arriscar mas não queria dar o braço a torcer. Acabado o copo, eu me levanto e volto a me servir, desta vez com um pedaço de pão. Pâmela, uma italiana, sai do quarto, vai até a cozinha buscar algo para comer e vê aquele ouro verde no liquidificador. Perguntou de quem era. “Nosso”, respondi. Ela põe um pouco no copo, aprova e o enche até a boca. Cheios também estavam os olhos do René, tenho certeza, mas ele resistia. Pâmela não sabia da conversa do dia anterior, isto foi o mais legal. Depois Rafo saiu do seu quarto em direção a sala, onde nos viu bebendo algo estranho. Não havia ainda se tocado. Perguntou o que era e eu o respondi. Entusiasmado ele foi até a cozinha. Eu continuei sentado esperando a reação. Minha curiosidade já estava me matando quando ouço um “aaaaah, que rico!”. Foi o estopim para a fome matinal de René, que pegou um copo e o tomou de uma vez, repetiu, mas ainda assim diz não ter gostado. “Não é nojento como eu pensei mas, de verdade, nada a ver abacate com açúcar.” Quando perguntado sobre por que teria, então, tomado dois copos, René cuspiu algumas palavras num espanhol rápido, baixo e incompreensível para se justificar. Nenhum de nós entendeu, nem mesmo o Rafo, que fala a mesma língua que René. Pedi para que ele repetisse mas desta vez ele não repetiu. Foi para o quarto e deu o assunto por resolvido. O resultado final foi bom: agora eles conhecem outra bebida brasileira além da caipirinha e Brahma. Agora a pouco voltei a provocá-lo, dizendo que no Brasil há uma coisa deliciosa que fazemos com o milho que eles não fazem. Com os dois pés atrás ele me perguntou o que era e eu respondi “pamonha”.
- O que é isso?
- Milho com queijo preparado em uma palha.
- Milho e queijo? Caralh*** eu adoro milho e queijo!
- Aham eu sei, todos os peruanos adoram.
- E é quente ou frio?
- Quente.
- Hum...então o queijo se derrete no milho? Que boa idéia!
- Nem me fale!
- E não é muito seco, salgado?
- Não. A pamonha é fervida. Assim, o milho, o queijo e o açúcar ganham uma textura ótima quando a retiramos da palha.
- Como assim, açúcar? Com milho e queijo? É mentira, Bruce. Putz, que nojo!

terça-feira, 10 de julho de 2007
















Uma ilha chamada Cusco

Hoje lembrei-me da minha tia que, sempre que algo some dentro de casa, diz “ninguém entra, ninguém sai”. Assim está Cusco. Mas aqui o que foi perdido (bem como em todo o resto do país e no Brasil) requer muito mais que uma procura, pede greve. Os professores fecharam todas as vias de acesso terrestre a Cusco, reinvidicando condições justas de trabalho, melhores salários e mais apoio a educação por parte do Estado. Isso levou muitos viajantes com passagem marcada a retornar a suas hospedagens, as empresas de transporte à loucura, os produtores e caminhoneiros ao prejuízo e o governo a nada, uma vez que a maior preocupação ainda parece ser lamentar a precoce(?) desclassificação da Copa América. O terminal rodoviário me fez sentir no Brasil: longas filas e pessoas revoltadas sem saber o que fazer à espera de seus vôos - ônibus, neste caso. Mas toda moeda tem dois lados, e com o sol (moeda peruana) não é diferente. Ao passo que as empresas de transporte e os produtores perdem (pero no mucho) o turismo ganha. Algumas pessoas não puderam voltar a suas hospedagens - já que estas foram ocupadas por outros - e com isso o giro no ramo hoteleiro aumenta. O momento é bem propício para que ignorem (mais) a voz dos professores, pois Machu Picchu acaba de ser justamente reconhecida (pela máfia do turismo?) como uma das sete maravilhas e, de donos de restaurantes a donos de hotéis, passando por taxistas e lojistas, a ansiedade para o garantido aumento da receita não é disfarçada. A Alcade (algo como prefeita) de Cusco está em Lisboa por ocasião da entrega dos resultados das 7 maravilhas e nada pode fazer para conter a situação. A estadia dela na cidade tampouco asseguraria uma atitude de repugnio aos bloqueios. Os cusquenhos não se mostram muito entusiasmados com ela que, entre outros deslizes, viajou a Portugal sem a autorização dos conselheiros da cidade num momento em que devia apresentar aos mesmos o balanço da sua administração atual. Disso tudo fica uma lição: diferente do que ensinam as cartilhas escolares, para o turismo de Cusco 2+2=5.

sexta-feira, 6 de julho de 2007


















Outra maneira bacana de conhecer Cusco é alugando uma dessas aí. Existem programas que variam entre 3 e 15 horas, é só escolher. Motivados por Renê (com uma garrafa de refrigerante de abacaxi na foto O3), parte do povo do hostal comprou a idéia de misturar frio, poeira e velocidade e, claro, já fizemos reserva para outro roteiro na segunda-feira. Renê também trabalha aqui. E além de ser um bromeador (gente finíssima) é jogador júnior do Cienciano, clube de futebol de Cusco.