Muito do colorido de Cusco deve-se a variedade de frutas oferecidas nas ruas e mercados espalhados pela cidade. A grande oferta de outros alimentos - como milho, queijo e mexericas (inclusive sem caroços!!) – é impressionante. Nesta manhã eu fui ao mercado em busca de uma fruta muito específica, clássica nos liquidificadores das melhores famílias brasileiras: o abacate. Encontra-se com facilidade por aqui também mas o uso que fazem deste distingue muito dos nossos hábitos vitaminescos. Em março, quando estive aqui com Padim e Fabim, me surpreendi quando um grupo de chilenos nos confessou nunca ter tomado vitamina de abacate. Mais que isso, fizeram cara de nojo. Eles não concebiam a idéia de sentir o sabor do abacate com açúcar. Aquilo me doeu. A palta (abacate em espanhol) para eles tem outros fins. Nas saladas, no meio do alface, tomate e cebola, ela tem lugar garantido. Eu provei algumas vezes e asseguro que não é o melhor rendimento que o nosso bom e verde abacate pode ter. Bom, ontem a cena com os chilenos se repetiu aqui no hostal quando Rafo e René (peruanos), Thomas (Inglês), Elina e Assuncion (mexicanas) e Lital (israelense), coloram suas pobres línguas para fora fazendo cara de “aaargh!!!” quando eu falei sobre esse nosso tesouro. Por isto a minha missão nesta manhã foi ir buscar uma palta para mostrar a eles o que é bom pra tosse. Sem avisar, comecei a preparar a vitamina. Ao ouvir o ruído do liquidificador, René se aproxima e entende de cara o que estava acontecendo. Calado esperou, espiou, coçou a cabeça. Desliguei o aparelho e provei. Não estava perfeito. Quando coloquei mais açúcar na vitamina ele disse: Putz, que coisa nojenta. Engoli quieto, como quem engole contente o primeiro trago da maravilha que estava a caminho. “Deixa ele”, eu pensava. Liguei o liquidificador e ele continuou ali, gorando. Pronta a vitamina, peguei um copo e me servi. Fiz aquela cara de Ana Maria Braga (estava realmente boa) e fui pro sofá ver TV. Ele continuava de pé, queria arriscar mas não queria dar o braço a torcer. Acabado o copo, eu me levanto e volto a me servir, desta vez com um pedaço de pão. Pâmela, uma italiana, sai do quarto, vai até a cozinha buscar algo para comer e vê aquele ouro verde no liquidificador. Perguntou de quem era. “Nosso”, respondi. Ela põe um pouco no copo, aprova e o enche até a boca. Cheios também estavam os olhos do René, tenho certeza, mas ele resistia. Pâmela não sabia da conversa do dia anterior, isto foi o mais legal. Depois Rafo saiu do seu quarto em direção a sala, onde nos viu bebendo algo estranho. Não havia ainda se tocado. Perguntou o que era e eu o respondi. Entusiasmado ele foi até a cozinha. Eu continuei sentado esperando a reação. Minha curiosidade já estava me matando quando ouço um “aaaaah, que rico!”. Foi o estopim para a fome matinal de René, que pegou um copo e o tomou de uma vez, repetiu, mas ainda assim diz não ter gostado. “Não é nojento como eu pensei mas, de verdade, nada a ver abacate com açúcar.” Quando perguntado sobre por que teria, então, tomado dois copos, René cuspiu algumas palavras num espanhol rápido, baixo e incompreensível para se justificar. Nenhum de nós entendeu, nem mesmo o Rafo, que fala a mesma língua que René. Pedi para que ele repetisse mas desta vez ele não repetiu. Foi para o quarto e deu o assunto por resolvido. O resultado final foi bom: agora eles conhecem outra bebida brasileira além da caipirinha e Brahma. Agora a pouco voltei a provocá-lo, dizendo que no Brasil há uma coisa deliciosa que fazemos com o milho que eles não fazem. Com os dois pés atrás ele me perguntou o que era e eu respondi “pamonha”.
- O que é isso?
- Milho com queijo preparado em uma palha.
- Milho e queijo? Caralh*** eu adoro milho e queijo!
- Aham eu sei, todos os peruanos adoram.
- E é quente ou frio?
- Quente.
- Hum...então o queijo se derrete no milho? Que boa idéia!
- Nem me fale!
- E não é muito seco, salgado?
- Não. A pamonha é fervida. Assim, o milho, o queijo e o açúcar ganham uma textura ótima quando a retiramos da palha.
- Como assim, açúcar? Com milho e queijo? É mentira, Bruce. Putz, que nojo!