segunda-feira, 23 de julho de 2007

Lago Titicaca







O Peru divide com a Bolívia um dos mais belos cenários da nossa América. O lago Titicaca, que segundo os mitos Incas é o local de surgimento desta cultura, está a mais de 3.750 metros acima do nível do mar, confortavelmente instalado no altiplano desta região. É o lago navegável mais alto do mundo e residência dos habitantes das ilhas flutuantes de Urus (ver vídeo) e ilha Taquile além das ilhas da Lua e do Sol, as duas últimas em território boliviano. Saímos de Cusco e fomos a Puno e Copacabana - ambas as cidades estão debruçadas sobre o lago. Íamos ficar três dias em Copacabana mas eu, Elisa e Kaala, australiana que saiu de Cusco com a gente, ficamos gripados, daí vamos embora amanhã cedo para um lugar menos frio. Em Puno já são mais de 30 as crianças com menos de cinco anos que morreram de pneumonia neste inverno. O Estado peruano enviou brigadas médicas para frear o número de vítimas. José, dono do hostal onde estamos, disse que na semana passada a noite chegava abaixo dos 15 graus. Me pareceu exagero, mas ao comprar o jornal vimos que todos os veículos estampam as baixas temperaturas em suas capas. Espero que La Paz esteja mais ameno. Aliás, daqui pra frente é só problema. Como fizeram os professores no Peru, aqui na Bolívia há uma ameaça real de fecharem os acessos a La Paz, ou seja, talvez eu não consiga pegar meu vôo na cidade de Cochabamba. Se tudo der certo e eu embarcar ainda corro o risco de não chegar a Brasília, uma vez que farei conexão em Congonhas, um aeroporto que dava medo mesmo antes do último acidente. Aliás, atchiiim, pra que eu fui sair de Cusco mesmo, ein?

sábado, 21 de julho de 2007

Saludos a Cusco




















Mais uma vez despeço-me de Cusco a duras penas. Enquanto risadas vindas da sala invadem meu quarto pelas brechas da porta, minha mochila (re)toma forma ao passo que alojo as minhas tralhas. Agora é só “juntar lembranças para os dias que virão”. No lap top, Mundo Livre S.A.. Na minha cabeça, quase um mês e meio de “turismo vivencial”. Rafo usou este termo para definir a minha passagem por aqui numa noite em que fomos ao aniversário de uma amiga dele. Neste dia eu tive a noção do valor dos laços que criei aqui, ganhei inclusive a primeira fatia do bolo. Os cusquenhos gostam de receber as pessoas, essa é a minha conclusão. Não falo sobre os que oferecem serviços turísticos, hoteleiros ou gastronômicos, sim do povo, o cusquenho que tem vida social, que enjoa da quantidade de estrangeiros que se esparramam diariamente pela principal praça da cidade mas dão toda a atenção quando um deles vai às suas casas, convidados para celebrar uma ocasião qualquer. Além do aniversário da Vanessa eu participei de outros encontros, quase sempre da mesma mancha (galera), onde sempre me senti em casa, isto é, quando o álcool me permitia sentir alguma coisa. Conhecer inúmeros estrangeiros também foi mais uma vez bacana. O freqüente entra e sai de mochileiros aqui no hostal me rendeu muitas lembranças. São muitos os e-mails anotados na esperança de um possível reencontro.

- Já sabe, quando for ao meu país me escreva!!!
- Claro que sim. Manteremos contato. Sentirei a sua falta.

E assim com todos. As chances de um segundo encontro são baixas mas o que importa mesmo e folhear cada um dos e-mails e ver o quanto se ampliou o seu circulo de amizades. Ah, Cusco. Sentirei falta do frio, dos sucos no mercado popular, do Rum com Coca-Cola, das algazarras em San Blas, do Reggaetom, do colorido, da voz da Maria Angola, do Ceviche (prato nacional), das noites vendo DVD com o povo, das sopas, das pessoas, do blog. Amanhã levo minha nostalgia para Puno. Na primeira vez achei que estava me despedindo, triste, de Cusco, sem saber que voltaria em breve. Oxalá desta vez aconteça o mesmo.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Machu Picchu, uma antiga maravilha do mundo.




Em 1911 um americano “descobriu” o que alguns quéchua que ali viviam já diziam conhecer: a cidade de Machu Picchu. Uma enorme expedição teve então início e foram descobertas outras ruínas além de uma trilha, a Trilha Inca. Hiram Bingham, que na verdade estava inicialmente interessado em estudar a topografia do país e seus ossos pré-históricos, apresentou a cidade ao mundo na publicação da National Geografic de 1913, pois além de sortudo era muito bom fotógrafo. Desde então a cidade perdida virou fetiche de viagem para muitos e um complexo campo de estudo para outros.

Acredita-se que a cidade tenha sido construída, habitada e abandonada em menos de 100 anos (a mais de 500 anos atrás). São 200 estruturas de casas e por esta razão estimam ter vivido aqui cerca de 1000 pessoas. Pachacuteq, o responsável pela ascensão do Império Inca, teria construído Machu Picchu - a 2.491 metros de altura – pouco antes da invasão espanhola e a abandonado pouco depois. Os europeus não souberam do local e isso diz muito sobre o porque do incrível bom estado de conservação da cidade.

A cidade é dividida em duas partes. Na agrícola vemos terraços que serviam para o plantio (isso que parecem grandes degraus – ver fotos) que além de ser uma solução muito inteligente tem também uma idéia estética bastante apurada. Arqueólogos estudam as camadas deste solo na expectativa de descobrir o que crescia ali. Tudo aponta que a maíz (milho) era cultivada nestes terraços. Na parte urbana, ruas e casas edificadas sobre imensas pedras - que absorvem o impacto de abalos sísmicos – chamam a atenção pela perfeição dos encaixes que desenham uma cidade de aparência bem planejada. As ruas de Machu Picchu nos levam a uma inevitável pergunta: como eles trouxeram tantas pedras enormes até aqui? Sabe-se muito pouco sobre a origem e funcionalidade de Machu Picchu. Uns dizem ter sido o centro administrativo do império Tawantinsuyu (Império dos quatro cantos), outros o centro religioso e alguns obra de extraterrestres, como, “reforçam” eles o argumento, as linhas de Nazca, há poucas horas daqui. O certo é que toda esta falta de informação mais sólida faz com que o cenário seja perfeito para a confusão de sensações que a cidade imprime.

















As três maneiras mais usadas para chegar a cidade perdida.

1 – Trem. Partem de Cusco e variam de preço, média entre 100 e 300 dólares ida e volta.
2 – Partindo de ônibus de Cusco até Santa Maria (viagem de 7 horas) e de lá uma van para Santa Tereza (+ 3 ou 4 horas numa estrada tipo precipício), de onde se caminha para chegar a Águas Calientes (caminhada de 3 a 5 horas) para, no dia seguinte, subir a Machu Picchu. 3 – A clássica trilha Inca, com variações de 2 a 5 dias de farta caminhada.

Há planos para a construção de um teleférico em Machu Picchu. O projeto é antigo e bastante polêmico mas o argumento da UNESCO (que em 1983 declarou a cidade patrimônio Cultural e Natural da Humanidade) de que a inovação ajudaria na preservação do patrimônio dá cada vez mais força aos idealizadores. Com isso espera-se um número ainda maior de visitantes diários, que passariam a ter acesso à cidade pela parte de trás, onde há uma central termoelétrica, decongestionando assim a rota atual.

E aí, se anima?

“Sair de viagem é sentir-se como no descontrolado momento em que surge o orgasmo” Rafo Leon, escritor peruano.

sábado, 14 de julho de 2007





O causo do açúcar

Muito do colorido de Cusco deve-se a variedade de frutas oferecidas nas ruas e mercados espalhados pela cidade. A grande oferta de outros alimentos - como milho, queijo e mexericas (inclusive sem caroços!!) – é impressionante. Nesta manhã eu fui ao mercado em busca de uma fruta muito específica, clássica nos liquidificadores das melhores famílias brasileiras: o abacate. Encontra-se com facilidade por aqui também mas o uso que fazem deste distingue muito dos nossos hábitos vitaminescos. Em março, quando estive aqui com Padim e Fabim, me surpreendi quando um grupo de chilenos nos confessou nunca ter tomado vitamina de abacate. Mais que isso, fizeram cara de nojo. Eles não concebiam a idéia de sentir o sabor do abacate com açúcar. Aquilo me doeu. A palta (abacate em espanhol) para eles tem outros fins. Nas saladas, no meio do alface, tomate e cebola, ela tem lugar garantido. Eu provei algumas vezes e asseguro que não é o melhor rendimento que o nosso bom e verde abacate pode ter. Bom, ontem a cena com os chilenos se repetiu aqui no hostal quando Rafo e René (peruanos), Thomas (Inglês), Elina e Assuncion (mexicanas) e Lital (israelense), coloram suas pobres línguas para fora fazendo cara de “aaargh!!!” quando eu falei sobre esse nosso tesouro. Por isto a minha missão nesta manhã foi ir buscar uma palta para mostrar a eles o que é bom pra tosse. Sem avisar, comecei a preparar a vitamina. Ao ouvir o ruído do liquidificador, René se aproxima e entende de cara o que estava acontecendo. Calado esperou, espiou, coçou a cabeça. Desliguei o aparelho e provei. Não estava perfeito. Quando coloquei mais açúcar na vitamina ele disse: Putz, que coisa nojenta. Engoli quieto, como quem engole contente o primeiro trago da maravilha que estava a caminho. “Deixa ele”, eu pensava. Liguei o liquidificador e ele continuou ali, gorando. Pronta a vitamina, peguei um copo e me servi. Fiz aquela cara de Ana Maria Braga (estava realmente boa) e fui pro sofá ver TV. Ele continuava de pé, queria arriscar mas não queria dar o braço a torcer. Acabado o copo, eu me levanto e volto a me servir, desta vez com um pedaço de pão. Pâmela, uma italiana, sai do quarto, vai até a cozinha buscar algo para comer e vê aquele ouro verde no liquidificador. Perguntou de quem era. “Nosso”, respondi. Ela põe um pouco no copo, aprova e o enche até a boca. Cheios também estavam os olhos do René, tenho certeza, mas ele resistia. Pâmela não sabia da conversa do dia anterior, isto foi o mais legal. Depois Rafo saiu do seu quarto em direção a sala, onde nos viu bebendo algo estranho. Não havia ainda se tocado. Perguntou o que era e eu o respondi. Entusiasmado ele foi até a cozinha. Eu continuei sentado esperando a reação. Minha curiosidade já estava me matando quando ouço um “aaaaah, que rico!”. Foi o estopim para a fome matinal de René, que pegou um copo e o tomou de uma vez, repetiu, mas ainda assim diz não ter gostado. “Não é nojento como eu pensei mas, de verdade, nada a ver abacate com açúcar.” Quando perguntado sobre por que teria, então, tomado dois copos, René cuspiu algumas palavras num espanhol rápido, baixo e incompreensível para se justificar. Nenhum de nós entendeu, nem mesmo o Rafo, que fala a mesma língua que René. Pedi para que ele repetisse mas desta vez ele não repetiu. Foi para o quarto e deu o assunto por resolvido. O resultado final foi bom: agora eles conhecem outra bebida brasileira além da caipirinha e Brahma. Agora a pouco voltei a provocá-lo, dizendo que no Brasil há uma coisa deliciosa que fazemos com o milho que eles não fazem. Com os dois pés atrás ele me perguntou o que era e eu respondi “pamonha”.
- O que é isso?
- Milho com queijo preparado em uma palha.
- Milho e queijo? Caralh*** eu adoro milho e queijo!
- Aham eu sei, todos os peruanos adoram.
- E é quente ou frio?
- Quente.
- Hum...então o queijo se derrete no milho? Que boa idéia!
- Nem me fale!
- E não é muito seco, salgado?
- Não. A pamonha é fervida. Assim, o milho, o queijo e o açúcar ganham uma textura ótima quando a retiramos da palha.
- Como assim, açúcar? Com milho e queijo? É mentira, Bruce. Putz, que nojo!

terça-feira, 10 de julho de 2007
















Uma ilha chamada Cusco

Hoje lembrei-me da minha tia que, sempre que algo some dentro de casa, diz “ninguém entra, ninguém sai”. Assim está Cusco. Mas aqui o que foi perdido (bem como em todo o resto do país e no Brasil) requer muito mais que uma procura, pede greve. Os professores fecharam todas as vias de acesso terrestre a Cusco, reinvidicando condições justas de trabalho, melhores salários e mais apoio a educação por parte do Estado. Isso levou muitos viajantes com passagem marcada a retornar a suas hospedagens, as empresas de transporte à loucura, os produtores e caminhoneiros ao prejuízo e o governo a nada, uma vez que a maior preocupação ainda parece ser lamentar a precoce(?) desclassificação da Copa América. O terminal rodoviário me fez sentir no Brasil: longas filas e pessoas revoltadas sem saber o que fazer à espera de seus vôos - ônibus, neste caso. Mas toda moeda tem dois lados, e com o sol (moeda peruana) não é diferente. Ao passo que as empresas de transporte e os produtores perdem (pero no mucho) o turismo ganha. Algumas pessoas não puderam voltar a suas hospedagens - já que estas foram ocupadas por outros - e com isso o giro no ramo hoteleiro aumenta. O momento é bem propício para que ignorem (mais) a voz dos professores, pois Machu Picchu acaba de ser justamente reconhecida (pela máfia do turismo?) como uma das sete maravilhas e, de donos de restaurantes a donos de hotéis, passando por taxistas e lojistas, a ansiedade para o garantido aumento da receita não é disfarçada. A Alcade (algo como prefeita) de Cusco está em Lisboa por ocasião da entrega dos resultados das 7 maravilhas e nada pode fazer para conter a situação. A estadia dela na cidade tampouco asseguraria uma atitude de repugnio aos bloqueios. Os cusquenhos não se mostram muito entusiasmados com ela que, entre outros deslizes, viajou a Portugal sem a autorização dos conselheiros da cidade num momento em que devia apresentar aos mesmos o balanço da sua administração atual. Disso tudo fica uma lição: diferente do que ensinam as cartilhas escolares, para o turismo de Cusco 2+2=5.

sexta-feira, 6 de julho de 2007


















Outra maneira bacana de conhecer Cusco é alugando uma dessas aí. Existem programas que variam entre 3 e 15 horas, é só escolher. Motivados por Renê (com uma garrafa de refrigerante de abacaxi na foto O3), parte do povo do hostal comprou a idéia de misturar frio, poeira e velocidade e, claro, já fizemos reserva para outro roteiro na segunda-feira. Renê também trabalha aqui. E além de ser um bromeador (gente finíssima) é jogador júnior do Cienciano, clube de futebol de Cusco.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Jessie

Foi inaugurada ontem a Universidade Engabeladora de Português, onde eu mesmo administro, leciono e dou 10 para todos. Na primeira aula Jessie, aluna norte americana, conta, em portinglês, a experiência que teve em Tumbes, litoral do Peru. O difícil foi me concentrar na aula. :) Ah, matrículas abertas.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

A la concha tu madre!!!






Ontem a noite apareceu aqui no hostal uma colombiana que foi roubada pelo taxista cujo fez corrida até a rua San francisco. Como? Antes de chegar ao Torcasa Hostal Cusco (sim, é uma propaganda descarada rs) ela tentou vaga em um outro hostal, na rua paralela. Desceu do carro, verificou se havia vagas e, com resposta negativa, voltou para a porta do hostal. Mas, peraí, cadê o táxi? Pois é...o motorista já estava longe. Manuela estava com uma calça cargueiro e, por sorte, portava no bolso o passaporte. O recepcionista do hostal, pasmo, chama a polícia que leva, segundo o relato dela, uns 10m para chegar. Feita a queixa o policial a recomenda alguma hospedagem na calle Marquês, onde está o Torcasa, que, às 23h e pouco, hora em que tocou a campainha, vibrava a falácias e vinhos na preparação para a Full moon, uma grande festa eletrônica em uma mansão, que como mostra o vídeo, tem uma vista espetacular de Cusco. Manuela apareceu calma na recepção do Torcasa, embora com rosto inchado e descabelada. Havia quartos livres e assim que se acomodou nos contou a estória. Cusco, por ser parada anual de turistas (esta é a cidade que dá acesso a Machu Picchu, ou seja...), tem sempre gente de más índoles querendo “ganhar” os gringos, por isto é preciso cuidado. Cusco está longe de ser uma cidade violenta ou cenário de casos similares, mas acontece. A cidade está bastante cheia. A princípio achei que fosse por conta do Inti Raymi, mas a alta temporada faz com que Cusco borbulhe durante junho e julho, ou seja, mão cheia para os pilantras. É um problema mundial, claro (até mesmo na Dinamarca há “aproveitamento”), mas receber este choque em uma hora em que o clima da cidade parecia tão perfeito mexeu com o povo do hostal. No final das contas Manu não pagou pela noite por motivos óbvios, e a festa, que já era esperada com ansiedade, ganhou um brinde especial com. Hoje de manhã o pesado clima pré-festa foi substituído pelo calor receptivo do café da Maria Helena, funcionária daqui. Estavam quase todos de pé (também, eram cerca de 12h) e o horário do desayno se estendeu devido ao bom senso da casa. (ufa!) O que mais me chamou a atenção foi a mobilização dos israelenses, que até então eram quase todos fechados entre si - com abertura máxima para um fático “bom dia, como está?”. Há pouco, dois israelenses foram com ela à delegacia para “reforçar” a queixa enquanto as meninas (também israelenses) foram sacar grana para emprestá-la. Raro, não? Também achamos. Sabendo disto, Rafo, o dono, um coração onde o rum corre pelas aortas, vai dar estadia grátis as israelenses até esta terça, quando se vão a Lima. Esta foi uma das coisas mais legais que vivi até agora, pois aproximou muito a galera. Manu ainda está perdida, claro. Depois da delegacia ela vai ao banco para habilitar seu cartão internacional mas não está segura de poder fazê-lo. Na pior das hipóteses ela já terá a grana para voltar para casa. Mas, da maneira que a unidade parece ter pousado sobre este grupo, duvido que ela volte para casa – ainda que com poucos dias de Cusco - sem uma puta lembrança bacana que borre esta má passagem.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Cusco 04






O Sol apareceu sem qualquer cerimônia na manhã de hoje. Nas ruas, passos retos e acelerados nas sinuosas ruelas do bairro de San Blas. Do alto da torre direita da Catedral, Maria Angola, a maior e mais antiga das campanas, cantava, às 10h, na única língua comum entre todos peruanos. “O dia já começara bem” lembrei mais tarde, quando o astro já se escondia entre as montanhas que abraçam Cusco. Durante o almoço percebo uma movimentação na pequena praça em frente a Igreja de San Francisco: um grande número de pessoas, a maioria de origem quéchua, comemorava a resolução que institui a obrigatoriedade do ensino da língua quéchua nas escolas. Na TV o destaque não foi grande mas nas ruas percebia-se a importância da vitória. Os quéchua são a maioria indígena do país e a medida não é só um passo para unir algumas diferenças é, também, uma forma de prestar uma necessária homenagem à riqueza desta cultura. Há alguns anos algumas das ruas de Cusco, que tinham nome em espanhol, receberam novos nomes, em quéchua, como início deste processo de resgate. Pouco mais tarde, depois da siesta, o orgulho peruano recebeu outra injeção de ânimo: Fujimori, ex-presidente que depredou os já não estáveis cofres do país, teve negado seu direito de disputar cargo político no Japão, seu país de origem. A decisão final ainda não foi dada mas hoje o corte japonesa deu um sinal claro de rejeição ao pedido de Fujimori. Os peruanos, é claro, vibraram. A terceira grande comemoração do dia veio ao fim do jogo entre Peru e Uruguai: 3x0 Peru. Decretado o placar, me juraram, cheios de estima, goleada quando enfrentassem o Brasil, direito deles, já que o dia todo foi cheio de boas vibrações. Às 22h Maria Angola cantou de novo, ressoando seus badalares pela região altiplana do Peru e anunciando o fim de um dia cheio de conquistas. Como sempre, a noite chegou fria, gélida, mas o sol que apareceu de manhã ainda brilhava forte dentro dos peruanos.

Cusco 03





segunda-feira, 25 de junho de 2007

Inti Raymi





O Inti Raymi (festa do sol) é um dos maiores legados Incas ao povo peruano. Esta foi a mais importante de suas festas, celebrada por ocasião do solstício de inverno - o ano novo solar para um povo que dominava a astrologia e cujo principal objeto de culto era o deus Inti (deus sol). A festa acontece todos os anos no dia 24 de junho, mas nem sempre foi assim.

Após a conquista dos espanhóis (extermínio, na verdade) a cerimônia foi suprimida pela igreja católica e a sociedade andina que participava do festejo foi simplesmente dizimada. Por conta da evangelização promovida pelos colonizadores a festa perdeu-se no tempo, sendo atrolepada pela cultura dos europeus e recuperada pelos cusquenhos em meados do século XX quando, como expressão de um forte movimento de revaloração da cultura nativa do Peru, a celebração voltou a colorir as ruas de Cusco.

Encabeçados por Humberto Vidal, intelectuais e artistas cusquenhos decidiram recuperar o Inti Raymi do esquecimento e apresentá-lo ao povo de Cusco como um belo espetáculo teatral e, sem muita demora, caiu nas graças de pessoas das mais diversas culturas. O tom pluricultural da festa não se deve apenas a abertura aos não nativos, pois nos desfiles que acontecem dias antes do Inti Raymi (ver fotos nos posts 1 e 2), onde participam “blocos” de estudantes, marciais, instituições etc, cada um deles têm características próprias, coreografias e trajes distintos, embora sempre ricos em cores, e, com a liberdade interpretativa que o teatro sugere, o que se vê ao fim de um dia de desfiles é uma grande mistura de idéias que se amarram a grandeza do Inti Raymi.

Um dos resultados da tradição oral dos Incas – a escrita foi uma das poucas coisas que eles não chegaram a desenvolver - é a riqueza mitológica desta cultura. A crença por trás do Inti Raymi é que, com a ajuda de seus sacerdotes, os Incas clamavam ao deus Inti (deus sol), assim que este chegava ao seu ponto de maior distância no céu, a voltar a cidade de Cusco para, com seus raios, fecundar a terra para que jamais existisse a fome e trazer bem-estar aos filhos do império Tahuantisuyo, que se extendia do norte do Equador a região central do Chile.

A festa recebe anualmente uma quantidade incalculável de visitantes. Como nem todos pagam pela entrada do evento é impossível calcular o número exato de pessoas. Mas o certo é que, sendo nativo ou não, a explosão de cores do Inti Raymi nos leva a um tempo muito distante, que nos aproxima um pouco mais desta cultura viva e sofisticada elaborada pelos mais de 12 milhões de indivíduos Incas a mais de 500 anos. O apelo turístico por trás do Inti Raymi também é grande, pois Cusco, durante todo o ano, é parada obrigatória a quem visita a região altiplana. Mas isso não tira o charme da antiga capital do império Inca, pelo contrário: a multidão de visitantes que se espremem nas suas ruelas é um elemento complementar a fantástica “capital arqueológica da América”.

Tentei postar videos só do Inti Raymi, mas estao grandes e o youtube nao esta aceitando...

sábado, 23 de junho de 2007

Cusco 02







Acordar de manhã, ir ao mercado municipal, me perder em meios às banquinhas e gritos (em espanhol e quéchua, uma das línguas do Peru - há ainda uma terceira, o aimara) que anunciam todo tipo de coisa, tomar um suco natural e dedicar alguns minutos a ver a enxurrada de jovens com mochila nas costas a sair da estação de trem que liga Cusco aos pés de Machu Picchu tem sido a minha rotina matinal. De dentro do mercado já é possível ver esta cena, mas o frio absurdo que faz cusco tremer me parece muito convidativo para um cigarro pós desayuno, daí vou até os banquinhos, que ficam do lado de fora, e divido espaço com nativos curiosos, que vêem esta mesma coisa todos os dias sabe-se lá há quantos anos. Por ocasião do Inti Raymi (a festa do sol), Cusco está lotada. Estão rolando vários desfiles pelas estreitas ruas, um preparativo tradicional para a grande festa. Quase não consegui comprar o meu ingresso (custou 40 dólares), mas graças a política tecida pelo Rafo (o dono do hostal), minha entrada está garantida. Hoje, perambulando, encontrei a Denise Fraga, que está fazendo o “Por ti, América” para o Fantástico e conversamos algumas amenidades, bem gente boa esta menina. Ontem a noite teve um show na Plaza de Armas (a maior e principal da cidade) e acabou umas 00h30. Daí fui ao Mamaáfrica, balada da qual eu, Fábio, Padim e uma pá de gringos amigos fomos expulsos em março. Que lembrança! Mais uma vez me veio a nostalgia, mas assim que começou o Reggaeton (o som que comanda por estas bandas) eu engoli as lembranças num bom gole de cusquenha (a cerva daqui) superei tudo rs.

P.S: Marcílio: traga um casaco forte, viu? Ou melhor, dois rs

Cusco 01









Os vôos não atrasaram mas os ônibus bolivianos...
De Cochabamba (Bolívia) a Cusco (Peru), passando por La Paz, o atraso foi de 9 horas. Minha intenção era chegar a Cusco ainda de tarde para pegar algum movimento na cidade, mas tudo que me esperava, às 03h, era um frio aterrorizante e um silêncio perturbador. Nem táxis havia. Éramos uns 25 e nos revezamos a medida que os táxis, preguiçosamente, apareciam. Estou no hostal (albergue) que era de um dos donos do hostal onde eu, Padim e Fábio estivemos em março e chegar aqui de madrugada foi bom demais. A porta estava fechada, o que implicou em mais uns minutos de tremedeira no frio inverno peruano, mas a sensação de pisar de novo nesta cidade linda compensa isso tudo. Aberta a porta, subi e dei de cara com Rafo, o dono, e demos várias palas. Na sala, 5 Israelenses, 1 chinês, 1 brasileiro e duas canadenses se esparramavam no sofá que fica de frente para a TV. Assistiam a um filme qualquer enquanto eu atravessei, com a minha mochila, um mar de caixas de pizza espalhadas pelo chão. Curti o ambiente de cara. Rafo me colocou num quarto com cama de casal e banheiro e me cobrou um terço do que está cobrando, nada mal. Cansado, tomei um banho, coloquei uma roupa bem pesada e cai na cama. Pouco depois reacendo a luz: o barulho de risadas e dos copos sempre cheios de vinho era mais alto que o meu grau de cansaço. Abri a porta e caminhei até o sofá. Fui dormir bem depois, já bêbado e feliz da vida com os novos contatos. Definitivamente isto me faz bem. Acordei já na hora do almoço e fui a uma pizzaria (aquela mesma, Fabim) com duas israelenses, que depois foram visitar ruínas enquanto eu fui andar pela cidade, curtir uma nostalgia boa e solitária no Quéchua Hostal, local onde fiquei da primeira vez e que está longe de ser o que era. Pretendo ficar assim, sem pressa nenhuma, até domingo, dia do Inti Raymi (festa do sol, herança direta dos Incas ao povo peruano, que nesta data faz uma celebração ao sol em uma das várias ruínas próximas a Cusco). Já que nem os motoristas de ônibus - que teoricamente precisam cumprir horários – parecem ter pressa, não serei eu a tê-la agora, né?